A psicologia das ideias (da irmandade) de Martin Luther King – Palas Athena


Data: 02/05/2016

Boa noite! Antes de mais nada, gostaria de agradecer o convite da Associação Palas Athena, pela professora Lia Dinskin e pela Priscila Fonseca, e dizer que fiquei muito honrado em poder ter esse espaço privilegiado e, claro, cheio de responsabilidade, para homenagear a obra de um homem tão imprescindível para nosso mundo atual e, porque não dizer, especialmente para nosso Brasil atual. Imprescindível não só pelas conquistas efetivas que teve junto à desigualdade e injustiça social contra negros americanos, que por si só foram enormes e ainda reverberam no mundo, mas creio que, apesar deste importantíssimo legado concreto deixado por Martin Luther King, a própria razão de seu grande esforço, ainda temos o dever de ouvir atentamente à outras de suas mensagens, àquelas que apontam para o centro do profundo problema da natureza humana, o difícil, inescapável encargo que nos pede incessantemente pela criação de uma nova consciência e que ele parecia reconhecer muito bem. Mas antes de endereçar diretamente tal questão, peço que caminhem um pouco comigo pelo legado da psicologia profunda, aquela iniciada por Freud e Jung no início do sec. XX.

O movimento que estes dois homens começaram, de dentro da ciência, tinha como premissa básica a ideia de que a condição humana, em sua essência, tinha uma tendência muito maior a agir de forma inconsciente, automatizada, repetida, do que com alguma percepção do que estava acontecendo. Esta condição, segundo eles, fazia parte de nossa esfera instintiva, do fato incontestável de termos uma mãe natureza, de sermos, também, filhos das mesmas forças que criaram tudo o que existe, de sermos, por exemplo, constituídos pelos mesmos elementos forjados no núcleo de cada estrela, verdadeiras fornalhas alquímicas de nosso universo. Enfim, repetimos sem pensar porque estamos inseridos em um movimento muito maior que nossas pequenas vontades. Como se diz por aí, não somos reis em nossos próprios reinos.

Contudo, por alguma razão ainda bastante especulada, estas próprias forças naturais também nos ofereceram algo a mais, diferente, ao menos em intensidade, de outras espécies do mundo animal. Quase como se tivéssemos sido empurrados de um galho para aprender a voar, recebemos o privilégio de olharmos com espanto para nossa própria condição, escorregando ligeiramente, mas sempre com muito esforço e muita tensão—e isso é muito importante lembrar—de uma existência mais sonolenta para outra que é desperta e, somente por esta razão, passa a influenciar todo o mundo ao seu redor. De repente, fez-se a luz da consciência de si mesmo e do mundo, mordemos a fruta da árvore da sabedoria e, claro, fomos expulsos do paraíso.

Mas foi exatamente por termos caído—como também acontece quando literalmente escorregamos e sofremos uma queda—que paramos para olhar o que fez esta queda acontecer. Pisamos em algo? Estávamos perdidos em nossos pensamentos e não olhamos para onde caminhávamos? Nesta imagem está algo essencial para a psicologia profunda, e que nos ajuda muito a olhar para a profundidade de Martin Luther King: Se temos a tendência a seguir com as coisas de forma automática, inconsciente, a criação de uma nova consciência exige, sem dúvida alguma, um esforço descomunal e constante, exige no mínimo a surpresa que é dar de cara com um tombo inesperado, com uma situação que nos questione e instigue a não permanecermos mais do mesmo jeito. Vejam o tamanho de tal empreitada! Percebam, também, o grau de acusação e defesa que uma exigência desta intensidade pode gerar em mim, em você, em qualquer um que se encontre nesta encruzilhada! E o problema complica-se um pouco mais, quando nos damos conta de que toda consciência nova gerada passa, imediatamente, a correr o risco de se tornar, de novo, automática, inconsciente. Porque? Porque assim como os gatos que, vez ou outra, fazem rondas onde vivem para identificar se todas as coisas estão no lugar, nós precisamos de certezas, precisamos de um mundo conhecido, precisamos imaginá-lo sempre da mesma forma, estático, para podermos relaxar, nos sentirmos acolhidos e seguros. Precisamos de uma imaginação que não mude muito, não nos ameace demais.

A consciência é uma certa força de imaginação, de percepção, que se volta para si mesma, ou como dizem, é reflexiva, se alimenta de si mesma, morde o próprio rabo, o que por um lado é bom, pois é como ler um trecho de um livro várias vezes até memoriza-lo e poder citá-lo em vários contextos; uma identidade é construída. Mas também é ruim, pois, ao fixar-se neste texto e passa-lo várias vezes, você passa a carrega-lo como algo valioso que te define no mundo e, portanto, também te limita. Declamamos este texto muitas vezes (nossa história de vida, por exemplo), comparamos o mundo ao que o texto diz e, de uma certa forma, o reforçamos cada vez mais até, se eventualmente passarmos do limite, nos tornarmos viciados por ele.

Agora, peço que não esqueçam que toda esta descrição que estou fazendo é do que se imagina acontecer num nível individual, com cada um de nós e nossas próprias idiossincrasias. Qual seria a dor e a força que teria que ser implicada, portanto, no caso de uma injustiça social, ou seja, quando a sociedade está carregando uma certa consciência coletiva que já passou do seu limite e tornou-se um vício, para que fosse mudada? Claro, imensamente maior. Coletivamente, sabemos, nos mexemos com muito mais vagarosidade.

Algumas décadas após este início de Freud e Jung, Martin Luther King, seguindo os passos de Gandhi, entre outros, iniciaria seu esforço incomensurável para promover a mudança de consciência necessária à alma americana, e que, como sabemos, foi de tal grau que marcaria a história do ocidente. O que King, como era conhecido, propôs como estratégia imbatível, estava bastante relacionado a este movimento psicológico e a o que, principalmente Jung, via como vital para o homem moderno se pretendesse estabelecer uma nova e mais saudável relação consigo mesmo e com o mundo. Jung sabia que a única forma de não repetirmos julgamentos e visões de mundo já estabelecidas era percebendo como as emoções, os pensamentos e as reações nos raptavam violentamente, nos tocavam de forma a exigir imediatamente uma resposta, sem tempo para compreendê-las, de novo, inconscientes.

Quando o presidente John F. Kennedy—o primeiro a apoiar a causa pela qual King lutava—foi assassinado, as palavras de King foram:

“Ao chorar pela morte do presidente Kennedy, choramos por um homem que se tornou orgulho da nação, mas também choramos por nós mesmos, pois sabemos agora que estamos doentes.” E um ano mais tarde diria ainda: “Embora a pergunta sobre quem matou o presidente Kennedy é importante, a pergunta “o que o matou” é mais importante.”

King, assim como Jung, também sabia que o trabalho de renovação da consciência estava no cerne dos problemas sociais como a injustiça, a segregação e a desigualdade. Sabia, também, de todos os riscos que corria ao tentar descontruir a imaginação social que havia se tornado a identidade doente de toda a sociedade: A ampla e, provavelmente violenta, resposta que sofreria em defesa das velhas posições hierárquicas sociais, mas também a não menos perigosa e violenta erupção de revolta e destruição que poderia despertar nas comunidades negras.

Assim como um bom terapeuta normalmente faz, King parecia desejar instigar uma mudança de realidade, de auto-percepção, de imaginação. Isso queria dizer que seus movimentos de resistência contra o tratamento indigno que recebiam não podiam estar apontados diretamente contra as pessoas que os praticavam, mas sim contra o sistema e as injustiças que tais pessoas haviam criado e não percebiam. Não fazia o menor sentido e não traria resultados culpar o paciente por sua descompensação, mas sim oferecer a ele a visão da mesma, de si mesmo. Sua terapia era clara, precisava dar um novo valor à imagem de uma nação, com todos incluídos, sem exceção. Em uma de suas falas desta época, King aponta:

“É banal, mas urgentemente verdade, que se a América pretende permanecer uma nação de primeira classe, não poderá mais ter cidadãos de segunda classe.” E ainda diria: “Fico feliz que (Jesus) não tenha dito “goste de seus inimigos,” pois é muito difícil gostar de algumas pessoas. É difícil gostar de pessoas bombardeando sua casa e ameaçando seus filhos, te chutando. Mas Jesus disse, “Ame-os,” e amar é maior do que gostar. Amar é a boa vontade redentora, compreensiva e criativa para todos.”

Mas, se a nação não podia deitar num divã psicanalítico e olhar para si mesma a partir de um ato consciente voluntário, teria que acabar enfrentando as dores dentro do mundo, sob a maldição de poder, somente após cada escorregão e queda, olhar para o próprio tombo e se perguntar como aconteceu. Esta parece ser outra regra psicológica comum. Como diria Jung, “O que você não torna consciente, torna-se o seu destino.” James Hillman, outro psicólogo Junguiano, de outra forma, também concordava, dizendo: O impulso em direção ao mundo necessita de análise, ou então você se torna um missionário.”

Porém, ainda é mais complexo. O esforço que teria que ser feito para dar à luz a uma nova perspectiva da realidade tinha que fazer frente ao esforço coletivo para manter as coisas como eram. Martin Luther King, assim como Gandhi havia feito, portanto, trabalhava numa psicoterapia de amplitude nacional. Mas como isso é possível? Como pode ser feito? Vale lembrar, primeiro, que estes grandes líderes não escolhem o lugar que acabam tomando. São, ao contrário, assim como a história, parte de um processo sem sujeito, sem intenções claras. Por alguma razão, carregam as características precisas, sincronizadas com um momento específico para que as peças comecem a se mover. Algumas tradições chamam estas pessoas de “cavalos,” ou aqueles que exercem o papel de carregar grandes forças transformadoras coletivas.

Quase na totalidade das vezes que se começa um processo terapêutico, isso se dá como consequência de um desconforto, uma dor, algo que, como já apontei antes, necessariamente gere uma certa tensão que nos coloque atentos, nos incomode, nos faça questionar. É a saída de nossa tendência ao comodismo, à anestesia. São como nossos dentes, não queremos saber que eles existem, pois se eles nos lembrarem de sua existência, teremos que correr para o dentista! Algo precisa ser inflado, inflamado, mas na medida certa, a medida que, como disse, não nos desestrutura, mas nos coloca em movimento para aproximar-se da questão.

Neste quesito, e talvez seja algo muito maior que uma simples coincidência, Martin Luther King, assim como Gandhi, têm inicios bastante similares. (SLIDE 5) King tornou-se o porta-voz do primeiro movimento contra a discriminação racial instigado pela recusa de Rosa Parks, e consequente prisão, a ceder seu lugar a um homem branco num ônibus, em Montgomery, Alabama. Gandhi, por outro lado, foi posto para fora do trem no qual viajava, por ser negro e estar numa cabine de primeira-classe. Ambos assumem dores coletivas, simbolizadas por feridas que vêm à tona dentro do apelo simbólico dos transportes coletivos. É claro que o funcionamento dos transportes coletivos não é a única fonte de revoltas em nossa história, mas como sabemos bem, especialmente em nosso país, parece haver algo extremamente representativo e importante nestes serviços, muitas vezes usados como símbolos de demandas populares. Talvez seja necessidade de uma movimentação social para algum outro lugar ou, talvez, ao menos, a necessidade de mais flexibilidade e liberdade imaginativa, de poder partir e chegar a mais lugares, ter mais destinos possíveis, menos paralisação mental.

A partir daí, Martin Luther King assume cada vez mais seu papel como terapeuta, usando de estratégias extremamente transformadoras como marchas simbólicas e a resposta, sempre, sem exceção, não violenta. A ideia, ainda que simples, é realmente bastante potente. Praticada em grupo, então, torna-se um tapa na cara, ou melhor, como Gandhi e King gostavam de dizer, torna-se a outra face da cara, oferecida para que o causador da violência tenha mais uma chance de perceber a si mesmo batendo de forma injusta, podendo finalmente cair em si sobre sua consciência e sobre a doença que ela está refletindo.

Chegamos, aqui, no ponto central da processo terapêutico de King. O fato é que nenhuma consciência pode ser enfiada goela abaixo. É assim, simplesmente porque nenhum de nós tem capacidade para controla-la, nenhum de nós sequer pode saber quanto de consciência possui, ou quanto precisaria ou poderia possuir a mais neste momento de sua vida. Como, afinal, você pode se esforçar para ter mais de algo que não sabe que não tem? Imaginem se dissessem a vocês agora, tenham, neste momento, mais consciência! Como reagiriam?

A melhor imagem para descrever esta condição é de uma bolha dentro d’água, limitada pela própria circunscrição, viciada em seu próprio tamanho. Neste sentido, o trabalho para uma nova consciência só pode ser feito por meio de estímulos, provocações no melhor sentido da palavra. O desconforto, uma vez mais. Ou ser o “outro” como a célebre frase de Sartre aponta quando diz, “o inferno são os outros.” A única coisa que pode trazer mais ar pra dentro da bolha, sem que ela perca sua forma, é outra bolha num encontro ainda debaixo d’água, as duas cercadas pelo mar do desconhecido.

A manifestação do outro, portanto, é a única coisa que pode nos colocar em contato com nossos limites de percepção, nosso único meio de escapar do vício de sermos nós mesmos. Porém, esses limites são tão sensíveis, que se o outro se aproxima deles com força, é difícil não responder defensiva e violentamente. Este é um encontro tão transformador quanto perigoso, e precisa ter a medida certa. E com razão. Nenhum de nós quer descobrir que esteve errado, fez algo vergonhoso ou agiu mal de alguma maneira.

Ao oferecer a outra face, não-violenta, King desejava estimular a consciência da injustiça que havia se concretizado, desejava fazer emergir no mundo real as marcas mais inconscientes e reprimidas da alma americana para que o sintomas resultantes pudessem cessar. Mas muitas vezes, também como se vê acontecer em terapia, primeiro é necessário piorar, tocar a ferida, para depois passar para o processo de cicatrização. Desconstruir para reconstruir.

De fato, o que King realmente havia compreendido era que, se a falta de justiça era uma doença consequente da própria falta de consciência, de uma certa forma, todos éramos doentes, pois nunca haveríamos de ter consciência de tudo. A conclusão era inevitável, só a compaixão poderia impedir um desastre, impedir a culpabilização desenfreada, o olho por olho que acaba por deixar todos cegos. Só a percepção de que cada um de nós é e será sempre constituído de perspectivas limitadas, de que cada um é conduzido a imaginar o mundo de uma forma específica sem perceber, de que somos todos falhos, mancos, caolhos, seria capaz de oferecer um ponto de intersecção, a imagem humana que nunca mudaria, nem com o tempo, e que, portanto, carregaria a verdadeira semente de sua psicologia da irmandade. Somos irmãos, iguais, porque em essência, não em aparência, carregamos a mesma angústia, a mesma incompletude. Está aí, também, a chave para o diálogo, prática que só é possível se ambos os lados tiverem seus “buracos,” suas dúvidas, expostas e disponíveis para serem preenchidas pela visão do outro.

King clamava pela liberdade, clamava por esta superação, “we shall overcome!” Era, com toda a certeza, a luta pelos direitos civis dos negros americanos, mas também era o símbolo que carregava a profunda tentativa de liberdade e superação dos julgamentos morais envelhecidos, anacrônicos, das reações evocadas por ímpetos cegos pelas próprias dores da história daquela nação. Não por acaso ele usava a palavra “dream,” sonho, palavra tão comum na auto-imaginação, na auto-descrição americana da realidade, muito conhecida através da retórica frequentemente usada como “o sonho americano.”

Em seu maravilhoso e potente discurso em 1963, King diz:
“A América é, essencialmente um sonho. É um sonho de uma terra onde homens de todas as raças, de todas as nacionalidades e credos podem viver juntos como irmãos. A substância deste sonho está expressa nestas profundas palavras: Consideramos essas verdades como auto-evidentes que todos os homens são criados iguais... Digo-lhes hoje, meus amigos, que, apesar das dificuldades e frustrações do momento, eu ainda tenho um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Eu tenho um sonho que um dia essa nação levantar-se-á e viverá o verdadeiro significado de sua crença. Eu tenho um sonho que um dia, nas montanhas rubras da Geórgia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes de donos de escravos poderão sentar-se juntos à mesa da irmandade. Eu tenho um sonho que um dia mesmo o estado do Mississippi, um estado desértico sufocado pelo calor da injustiça, e sufocado pelo calor da opressão, será transformado num oásis de liberdade e justiça. Eu tenho um sonho que meus quatro pequenos filhos um dia viverão em uma nação onde não serão julgados pela cor da pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Eu tenho um sonho hoje. Eu tenho um sonho que um dia o estado do Alabama, com seus racistas cruéis, cujo governador cospe palavras de “interposição” e “anulação”, um dia bem lá no Alabama meninos negros e meninas negras possam dar-se as mãos com meninos brancos e meninas brancas, como irmãs e irmãos. Eu tenho um sonho hoje. Eu tenho um sonho que um dia “todos os vales serão elevados, todas as montanhas e encostas serão niveladas; os lugares mais acidentados se tornarão planícies e os lugares tortuosos se tornarão retos e a glória do Senhor será revelada e todos os seres a verão conjuntamente”.

King sonha junto com o sonho americano, um que fora forjado no nascimento daquela nação, e depois esquecido. Sonha o sonho coletivo e torna-se o condutor deste transporte coletivo. Sua tentativa de instigar a consciência é uma estratégia e um esforço gigantesco. Através do sofrimento que não reage com violência, King expõe de forma clara o lugar de vítima e o lugar do agressor. Não a vítima que tende a se aproveitar dessa posição pra manipular, não aquela que se torna vítima de si mesmo, mas aquela que não aceita ser vítima do outro e que também não transforma o outro em sua vítima, repetindo o mesmo erro. Este é outro ponto crucial para psicologia: Percebe-se que o processo terapêutico está realmente adentrando uma nova consciência, quando o indivíduo, ou no caso da luta de King, uma certa camada social, não possui repertório para responder à nova perspectiva de mundo que está sendo oferecida. King mostra sua consciência deste fato quando diz:

“Eles sabem como lidar com a violência, mas já provaram repetidas vezes que não sabem como lidar com a não violência”

A falta de resposta, o assombro, a petrificação são sinais de um curto circuito, sinais da exposição da própria dúvida, a mesma que pode torna-se a nova perspectiva, o buraco que pode ser preenchido pelo outro e iniciar o diálogo. Se a violência é uma resposta conhecida é, também, uma consciência conhecida e, portanto, corre o risco de anestesiar, diminuir a atenção, a consideração, gerar uma resposta reativa e inconsequente. Uma nova consciência depende, claro, de uma certa violência, porém não da violência externa projetada no outro, mas a violência que pode romper com os próprios limites, a violência contra a própria percepção da realidade, que está essencialmente e inevitavelmente na aproximação com uma nova perspectiva. Por isso, ela também não pode provocar e justificar uma reação comum, senão estaria somente reforçando velhas agendas.

Tal estratégia alcança resultados terapêuticos dos mais honrados, pois tudo o que promove é em prol da consciência: desde a percepção do lugar social a partir do qual a vítima fará seu esforço, o tamanho da resistência que terá que ser suportada para estimular a saída deste lugar e até o próprio acolhimento da dor como parte necessária do processo para, vejam só, o tratamento do próprio causador da injustiça!
Esta luta, portanto, não se torna pessoalmente contra o causador da desigualdade, mas a favor dele. Não dele como é hoje, mas de uma versão mais consciente, pois esta é, também, parte da única solução para a criação de uma nova consciência coletiva. O causador não é imaginado como a personificação do mal, mas como vítima de um processo inconsciente aprisionante. E se a consciência não é algo que se controla, então o causador oprime somente porque não consegue saber, ainda não. Não estou aqui eliminando a perversidade das possibilidades humanas, tirando responsabilidades, mas sim afirmando que, ao menos como parte da terapia que pretendia oferecer à América—e sem, aqui, levantar a bandeira da utopia—estava claro que King fundamentava suas atitudes na célebre frase proferida por Cristo na cruz, “Perdoia-vos, pai, pois não sabem o que fazem.”

E se por um lado ele pregava a resposta não-violenta como única possibilidade de mudança, por outro também sabia que precisava suportar toda a reação violenta que esta geraria. Em outro discurso, King diz:

“Vocês leram que mudar o coração dos homens é a única maneira de resolver isso e eu acho que é verdade. Também pode ser verdade que moralidade não pode ser legislada mas o comportamento pode ser regulado. Acho que é verdade que a lei não pode fazer um homem me amar, a religião e a educação devem fazer isso, mas a lei pode impedi-los de me linchar eu acho que isso é muito importante também."

Perguntado como transformar mármore na estátua de um cavalo, diz-se que Michelângelo respondeu: “É fácil, basta tirar do mármore tudo que não for cavalo.” Na história de Martin Luther King, essa foi sua luta, nunca uma guerra pessoal, sempre em prol de uma terapia coletiva. Mas diferente do escultor que olha pra pedra ainda bruta e retira o que não é cavalo a partir de um olhar de fora, Martin Luther King nasce e emerge de dentro de uma dor coletiva, da profunda dor da alma americana tão consagradamente negra, como é possível constatar em toda sua expressão artística. King, vindo de dentro da pedra bruta, portanto, não poderia tirar o que não era cavalo. Sua única opção era, essencialmente, transformar-se em cavalo e forçar sua saída carregando todas as dores que ainda precisavam de olhar e cuidado, que ainda precisavam tomar forma, a forma dele mesmo, o rosto, o corpo e a cor que representariam o sacrifício por uma nova consciência, e que também pediriam o sacrifício do outro contra a injustiça social, em direção a uma psicologia da irmandade e da concretização da essência do sonho americano.
Muito Obrigado!