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Discurso proferido por Lia Diskin na sede das Nações Unidas em 2 de outubro de 2007, dia Internacional da Não Violência


Data: 02/10/2007

Quando nascemos chegamos ao cenário da Vida onde já está em curso um enredo, uma trama com infinidade de atores cujos papéis estão ancorados em um passado imemoriável. Toda aprendizagem carrega então esse passado que exerce uma coerção a fim de que o aprendiz se adapte ao enredo, se nutra dele e, por sua vez, ofereça novas variáveis, criações originais e contribuições que ajudem no projeto de humanização a que estamos destinados – visto que, diferentemente das outras espécies vivas, somos um projeto inacabado.

Os avanços neste processo são impulsionados por mulheres e homens visionários, que descortinam no humano, espaços de consciência ainda não articulados, que dão voz e nome a modos de ser e estar no mundo mais significativos, justos e solidários.

Uma das contribuições emblemáticas que nos ofereceu o século XX é a vida de Gandhi, cujo legado marcou definitivamente o rumo da história, e com ela a compreensão daquilo que podemos entender por propriamente humano. Cabe afirmar nesse sentido que foi um pedagogo social, não só da Índia como da humanidade inteira, pois disponibilizou através de sua experiência um repertório de orientações e metodologias que visam uma ordem de convivência, para que as potencialidades de cada indivíduo encontrem condições favoráveis para se desenvolver de maneira saudável e digna. Dito com outras palavras, expressar o que de maior e melhor abriga cada um de nós.

Somos criaturas de e em relação. O ambiente onde nos desenvolvemos cria a paisagem interna que impulsionará ou inibirá o poder criativo da Vida, desenhando os consequentes padrões de comportamento, sentimentos e pensamentos. Se o meio do qual nos nutrimos for hostil, as chances de reproduzi-lo são consideráveis. O mesmo vale se as condições forem de acolhimento, segurança e justiça.
É nesse espaço de relação e de interatividade da pedagogia de Gandhi que encontramos o instrumental capaz de quebrar o jogo mimético a que estamos submetidos – individual e coletivamente. Dito com as próprias palavras do Mahatma: “Para combater a injustiça é necessário auto educar-se”, o que requer em primeiro lugar reconhecer que qualquer situação de violação de direitos se perpetua unicamente se há cooperação por parte dos injustiçados que aceitam tais violações como fatalidade ou condições naturais da existência. Isto, além de descartar as possibilidades de mudança – de desenvolvimento e aprimoramento – submerge a todos na barbárie e na falta de um sentido edificante para as novas gerações.

Em segundo lugar, é necessário conclamar os recursos internos da coragem e da lucidez a abandonar o estado de passividade, resignação, impotência e indiferença para, por último, tomar a decisão de não obedecer, não se submeter à humilhação, à opressão ou a todo aquilo que nos diminui, apesar das represálias que isto possa acarretar. Assim, para Gandhi, a não cooperação com o ignominioso é um dever, mas um dever cujo cumprimento pode realizar-se unicamente por meios não violentos. Sejam quais forem os instrumentos usados para acabar com a exploração, dominação e injustiças, eles têm de estabelecer previamente um compromisso com a não violência (ahimsa) – princípio soberano de transformação pessoal e coletiva.

“A violência é suicídio”, diz Gandhi. Ela nos desumaniza. Sequer nos torna animais, porque estes são agressivos, mas não premeditadamente violentos. Portanto, a violência nos catapulta a um limbo existencial, a um espaço de indefinição, a um deserto da Vida. Contudo, a violência continua estando aí, glamorosa e infiltrada nos quatro cantos como “matéria prima da atualidade”, como diz o filósofo gandhiano Jean-Marie Muller, e é tão presente que corremos o risco de cair na pandemia de uma “síndrome de imunodeficiência à violência adquirida”, como nos adverte o psicólogo militar estadunidense Coronel Dave Grossman, que durante 25 anos foi oficial de infantaria com a missão de capacitar soldados a entrar em combate.

Eis a razão pela qual celebramos a recente e mais do que oportuna proclamação do Dia Internacional da Não violência, por parte da Assembleia Geral das Nações Unidas, no dia de nascimento de Mohandas Karamchand Gandhi – o Mahatma.

Eis também a razão pela qual a Associação Palas Athena, há 26 anos, celebra no início do mês de outubro, as Semanas Gandhi que, neste ano, congrega mais de 400 atividades espalhadas em 6 estados brasileiros, 16 municípios, 89 escolas públicas com aproximadamente 25.000 crianças, 4 universidades e dezenas de instituições governamentais e da sociedade civil.

Todas as programações são realizadas obrigatoriamente com entrada franca, e realizadas por voluntários que promovem atividades fundadas nos três princípios gandhianos de: Não violência ativa – disseminar e cultivar ações e atitudes pacíficas em todas as dimensões da vida, convidando os participantes a refletir sobre as consequências nefastas da violência física, estrutural e cultural; Responsabilidade individual e coletiva – possibilitar que as pessoas tomem consciência de seu poder pessoal (empoderamento) para agir em benefício da sua comunidade, incentivando desse modo o protagonismo social, o exercício da cidadania; Simplicidade voluntária – evitar o supérfluo e o desperdício, isto é, fazer circular o que está parado, reciclar coisas e ideias e minimizar o consumo irresponsável. Este ponto, após a difusão do Relatório sobre Mudanças Climáticas no Planeta, apresentado em Paris em janeiro passado, adquire um caráter imperativo de urgência por parte de todas as Nações do mundo.

Feliz pelo fato de saber que é Gandhi o motivo pelo qual estamos hoje aqui reunidos, agradeço a singular oportunidade que me ofereceu o Governo da Índia, mui especialmente a Sra. Sonia Gandhi, para participar deste momento histórico, e os convido a assistir algumas breves cenas das Semanas Gandhi promovidas pela Associação Palas Athena ao longo destes 26 anos, em terras brasileiras. Muito obrigada.