A Cultura de Paz Um paradigma em gestação


Data: 02/10/2017

Organizador do texto: Basilio Pawlowicz

É da natureza dos homens tentarem o impossível.

A Declaração Universal dos Direitos Humanos, promulgada pelas Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, completou 70 anos no ano 2000 com um desafio que, mesmo não sendo novo, talvez seja o maior dos últimos tempos: conjugar direitos humanos com direito a um ambiente sadio e sustentável.
Nas comemorações do 50º Aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1998) foram escolhidos seis princípios que norteiam o movimento mundial pela Cultura de Paz promovido pela UNESCO, e que permanecem vigentes:

* Respeitar a vida * Rejeitar a violência * Ser generoso * Ouvir para compreender
* Preservar o Planeta * Redescobrir a solidariedade

As pesquisas sobre a paz iniciadas como disciplina sistemática entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial abriram espaço para a criação de grupos de estudos, centros de investigação e cátedras nas maiores universidades do mundo. No Brasil, a Universidade de Brasília se destacou pelo pioneirismo, assim como a Universidade Aberta do Meio Ambiente e Cultura de Paz (Umapaz) em São Paulo, com ações práticas e iniciativas consolidadas. No contexto internacional, em outubro de 2005, representantes de onze países reuniram-se em Londres para articular a criação de Ministérios de Paz em seus próprios governos.

Todas essas mobilizações evidenciam a urgência de encontrar uma nova base de convivência democrática com um repertório de conhecimentos capaz de minimizar as escandalosas injustiças sociais, a exclusão geradora de violência, e a ação predatória sobre os parcos recursos que restam no planeta. Tal revolução demanda redefinir prioridades, ampliar a percepção da realidade e acionar valores de integração social – o que significa abrir caminhos para a vigência de um novo paradigma. Entretanto, as novas tendências não se instituem, não nascem por decreto, eles são fruto de processos nos quais a consciência coletiva metaboliza novas variáveis para dar conta de desafios que a complexidade crescente do mundo lhe apresenta. A matéria prima de tais desafios está nas consequências do tempo presente das escolhas, realizadas num passado próximo ou remoto.

No acontecer humano há um encadeamento de causas e efeitos – nem sempre linear – que permite olhar para trás e para frente em busca de modalidades de modos de ser e de estar no mundo mais satisfatórios e desejáveis, na tentativa de agir com competência e mudar os modelos insuficientes.

Nenhum conflito pode ser transformado positivamente apenas com a participação dos elementos que o criaram, sendo necessário abordar a realidade com uma percepção ampliada e enriquecida pelo diálogo aberto à pluralidade e à criatividade.

Esta atitude permite reconhecer que estamos imersos em uma cultura que glorifica o expansionismo, a dominação, a acumulação, a competição, a luta, e cujas consequências lógicas são o individualismo, o consumismo e a incapacidade de lidar com a frustração de não conseguir resultados satisfatórios e duradouros.

Os pesquisadores da Paz afirmam que as características próprias do patriarcado como cultura de dominação, geram uma cultura de violência estrutural que legitima a força e o poder coercivo sobre outros como modos naturais de convivência, com o agravante de que os abusos do poder não são percebidos como violência porque são trivializados e assumidos como legítimos.

Como consequência, a Cultura de Paz tem duas missões principais: primeiro desvendar, tornar visíveis as violências que se perpetuam pela omissão e/ou aceitação de condições humilhantes como sendo próprias das dinâmicas sociais, inevitáveis ou, pior ainda, intrínsecas à natureza humana. Nesse sentido cabe lembrar que os atuais estudos sobre comportamento animal derrubaram a tese que justificava a violência humana como resultado de nossa herança/origem primata. Pesquisas históricas contemporâneas revelam também que existiram culturas que não foram expansionistas, nem colonizadoras, mas criadoras de vinculação solidária, cooperativas e inclusivas.

A segunda missão consiste em implementar novas tecnologias de convivência que abordem o conflito pelo viés de sua potência transformadora e instrumento necessário à manutenção democrática dos relacionamentos. Uma sociedade pautada na liberdade é plural, apenas os totalitarismos são singulares. Portanto os conflitos não devem ser impedidos, mas trabalhados de modo edificante para que as partes envolvidas em interesses divergentes possam descobrir espaços de articulação e crescimento mútuo, reafirmando a convicção de que a paz é sempre possível, e que a violência é evitável.

A despeito de um cenário pouco amigável, o novo paradigma dá sinais promissores em iniciativas recentes, que se expressam como responsabilidade social no mundo dos negócios; justiça restaurativa no âmbito do Direito; consumo responsável entre ecologistas; ações afirmativas onde impera desigualdade de oportunidades; diálogo inter-religioso entre os diferentes credos; comitês de reconciliação em comunidades dilaceradas pela intolerância; confederações regionais de ajuda mútua e a vigorosa mobilização social que se engaja em milhares de organizações não governamentais com o propósito de atender necessidades básicas de comunidades carentes, excluídas, de refugiados ou vítimas de catástrofes naturais.

Quais serão os próximos passos?... Eles serão construídos em parceria, juntos!