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11.04.2019
Por quê Star Wars não tem fim?

Camilo Ghorayeb - Palas Athena



 A pergunta é bastante coerente. Afinal, a história desse universo – que assim como a do verdadeiro Cosmos – parece estar em constante expansão, iniciou-se no já distante ano de 1977, quando ninguém sonhava em ganhar o público com narrativas sobre guerras siderais (e que, como explica a abertura do episódio IV – Uma Nova Esperança, aconteceram muito tempo antes de nossa era Terrestre).

Faz 42 anos! A pergunta também é oportuna, já que, comprada pela gigante The Walt Disney Company, a saga ganha agora um parque temático exclusivo, o Galaxy’s Edge (veja as imagens da construção em: https://www.youtube.com/watch?v=SowdvPryB2g), a ser inaugurado no dia 31 de maio. Um detalhe: esta é só a primeira parte, com mais de 56.500 metros quadrados e até uma réplica de tamanho real da famosa Millennium Falcon. A outra parte, chamada "Star Wars: The Rise of the Resistance" pretende ser mais real ainda e incluir o visitante de uma vez por todas nas batalhas entre Jedis e o lado sombrio da Força.

Com tantos anos, é claro que já se especulou todo o tipo de motivo para tanta longevidade e, o que é mais difícil, as razões para as pessoas ainda se mobilizarem demais com temas aparentemente já tornados clichês. O diretor e criador da saga, George Lucas, tenta minimizar seu feito explicando que na verdade é simplesmente uma história de traumas e tramas familiares como outra qualquer. Um pai difícil de ser encarado, reconhecido, filhos criados com histórias familiares inventadas para não serem expostos, descobertas chocantes e suas projeções cheias de culpa e medo, as fantasias de como nossas vidas deveriam ter sido e que acabaram arruinadas, a superação da raiva e da imposição de punições às gerações que nos antecederam, entre tantos e tantos outros.

Lucas parece querer dizer que o fato de esta história se desenrolar no espaço envolvendo ideias sobre grandes forças do bem e do mal entrando em colapso representa os detalhes e as amplificações imaginativas do tamanho do significado que estas complexas histórias trazem, a dimensão dos desafios que a condição familiar impõe a todos, querendo ou não. Estaríamos portanto – a despeito de toda e qualquer tecnologia produzida, e até mesmo a despeito das grandiosas conquistas de um universo cheio de mistérios – ainda fadados a resolver o problema mais íntimo das relações humanas.

Grandes explorações e conquistas poderiam ser – nesta perspectiva, inclusive – uma tentativa de desviar a atenção para aquilo que não nos deixa nunca, por mais força que se faça, por mais sucesso que se obtenha, por mais anos de terapia que se acumule: a implacável sacada de que a sua e a nossa culpa, nosso medo ou raiva jogados no mundo ou nas relações das quais fazemos parte sempre chegam a só uma dentre duas conclusões: a destruição ou recriação de si mesmo. Explore o universo, torne-se um Jedi, mostre seus poderes, seja grandioso, benevolente... construa o personagem que achar melhor. Ainda assim, a conta que será paga terá a ver, intimamente, apenas com você e – possivelmente – com questões que você nem pode imagina possuir. Parece clichê, e é. Mas já havíamos sido alertados pelo quarteto fantástico de Liverpool: O amor que você leva é igual ao amor que você produz. A dor também.

Aqui é importante notar a ausência de um Deus provedor que organiza sua criação, e portanto a situação é ainda mais complexa - estamos à deriva, a “coisa” é com a gente mesmo, querendo ou não. Há uma espécie de Força que envolve tudo, mas que também dá espaço à criação de todo o tipo de criatura e situação, boa ou ruim.

A organização destas possibilidades cabe somente aos que têm consciência suficiente para manipular tal Força na direção que entendem ser melhor para o Universo. Mas claro, isso cria um confronto direto com outros, com suas Forças, que entendem ser melhores. Estamos portanto muito além de princípios morais, razão pela qual a história contada se passa num universo distante do nosso, uma sacada de mestre de Lucas confirmada por seu consultor, Joseph Campbell—pois o universo estranho já prepara os espectadores para uma experiência que não pode ser julgada pelo que conhecemos até agora.

Há muita especulação por trás da influência do famoso mitólogo na saga "Star Wars". Pelo que parece, uma parte é ficção: Lucas teria tido sua epifania criativa e baseado o roteiro do filme logo após ler "O Herói de Mil Faces", de Campbell. No celebrado livro o autor discorre sobre como diversas histórias mitológicas em diferentes contextos culturais, durante toda a jornada humana, parecem falar de um caminho em comum: o chamado monomito.

Neste sentido, Campbell se alia a Jung no que se refere a imaginar a condição humana tomada por forças universais, naturais, e que ao adentrarem a cultura por meio da capacidade simbólica humana, ganhariam imagens específicas, personagens, aventuras, sempre de acordo com as condições geográficas e culturais da sociedade que as cria. Mas ao retirar este véu – que veste o herói de regiões tropicais com sungas e o imagina em aventuras dentro de florestas, o que não acontece com o herói de regiões frias ou desérticas – sobrariam temas comuns a todos eles.

O caminho do herói então seria uma tradução do que é comum ao ser humano, do que invariavelmente passamos, independentemente do trabalho, sucesso (ou fracasso) que temos, assim como as tramas familiares comuns que acontecem mesmo num espaço distante, tecnológico, que teriam ocorrido muito tempo antes de nós.

Finalizando esta parte ficcional, voltamos ao fato de Lucas não ter tido esta epifania por causa do livro de Campbell. Algumas fontes menos fantasiosas que recontam esta história dizem que Lucas já tinha o projeto, personagens e uma grande parte da história. Mas muito dela foi também modificada no caminho, ganhou vida própria (como acontece com coisas que criamos a partir de nós, mas que não parecem nossas). Darth Vader a princípio não era pai de Luke Skywalker. Seu verdadeiro pai realmente havia sido morto pelo amedrontador personagem que quase não respira sozinho. Aparentemente, mesmo depois do lançamento do primeiro filme contando a saga de Luke, esta questão ainda estava indefinida. Ganhou força na medida em que a mudança de uma história real, concreta, para uma simbólica pareceu ter maior força, pois falava mais com nossas fantasias, com as histórias que criamos para dar conta de encarar a realidade.

Lembro-me do ótimo filme "Doze homens e uma sentença". A história é de um júri popular, pessoas que não se conhecem e que precisam tomar uma decisão sobre um suposto filho que esfaqueou e matou seu pai. Precisam decidir se ele é culpado ou não e, então, mandá-lo para a cadeia ou para casa. Na regra americana, país onde a história se passa, os doze devem ter o mesmo veredito para poder anunciá-lo, o que causa muito desconforto – pois estas pessoas foram obrigadas a parar suas vidas, convocadas a decidir sobre algo que talvez nem as interesse. Para encurtar a história, o filme todo é uma grande discussão sobre a culpabilidade do garoto, mas que tem diversas faces. Onze dos doze escolhidos querem culpá-lo, mas um resiste e tenta fazer um trabalho de análise mais apurado, até que as razões para a culpabilização vão se desvelando. Uma delas é o descontentamento em estar lá. Em outras palavras, “vamos todos decidir logo que ele é culpado e sair daqui”. Mas ainda aparecem outras: raciais – o suposto criminoso é porto-riquenho; e as de relações pessoais e simbólicas – um dos últimos homens a mudar seu voto sentiu-se “esfaqueado pelo próprio filho quando este decidiu sair de casa e ter sua própria vida”.

O filme poder ser visto na plataforma Vimeo, pelo link: https://vimeo.com/158869195
É neste sentido que Lucas entende que, ao invés da morte real, a morte simbólica de um homem, pai de Luke, para o nascimento de outro (Darth Vader) parece falar mais com questões humanas. Com o livro de Campbell, Lucas admite que muito foi compreendido – entendeu que seu caminho estava certo e, além disso, usou do imenso estudo do mitólogo para afinar seus personagens em consonância com os temas humanos que vivemos, seja neste planeta ou em qualquer outro.

E para finalizar, Campbell, um entusiasta da história, ainda sugere: Lucas criou uma aventura no espaço porque não há mais lugares desconhecidos em nosso planeta, onde os mistérios do que a vida é feita podem somente ser contemplados e, exatamente porque não os deciframos, temos que respeitá-los. Neste sentido, os elementos da vida ainda estão vivos, ainda falam com todos nós, não foram explicados, definidos (por mais que, na verdade, mesmo uma explicação racional não consiga esgotar um fenômeno).
Mas não estamos falando aqui de uma dissecação real e completa de como a vida na Terra funciona, mas sim do fato de nossa imaginação acreditar tão seguramente nesta hipótese, que o que nos deslumbrava como o mistério da criação, de onde todos viemos – e isso não implica ter uma religião para perceber – é realmente desconhecido e, portanto, maior que todos nós.

Em outras palavras, no âmago da sensação de sermos filhos de algo, de pertencermos a algum lugar, está a necessidade de perceber-se menor que este lugar! Mas a definição do que é este lugar, paradoxalmente, o diminui! Estamos aqui, no momento de nossas vidas, em que percebemos que já vivemos o suficiente com nossos pais para conhecê-los e que, então, é melhor abandoná-los e buscar ampliar a vida. Os pais diminuem com o tempo. Mas não é o fim. Eles também crescem de volta – e deveriam – pois são redescobertos na medida em que vivemos experiências parecidas com as deles e ampliamos nossa sensação de mistério sobre o que eles passaram – já que nós, nesta posição, podemos nos sentir tão confusos (por exemplo: casamento, criação de filhos, família, ou mesmo qualquer ato de cuidado que possa nos fazer ponderar sobre como teria sido cuidarem de nós mesmos – questão que antes não estava provocada dentro de nós).

A história de "Star Wars", num lugar desconhecido como o Universo, permite que resgatemos essa sensação de filiação e desconhecimento, o que uma vez mais provoca nossas questões mais essenciais. Mas ainda mais importante: com a realocação da imaginação – não mais no mundo – deixamos de jogar nossos medos, culpas e dores nas relações que conhecemos e passamos a ter uma nova chance imaginativa. Colocando de outra forma, a psique não está esgotada, não estamos sem saída, e nossos pais e relacionamentos mais próximos, nossa própria humanidade, não é culpada de tudo. Há muito mais por vir. Há o que não se conhece. Deixa-se de projetar no outro, em algo literal como “o que você fez comigo”, e pode-se então ter mais espaço e tempo (perdoem a ironia da expressão), sentir-se menos ameaçado para respirar e produzir a única força, esta que nos envolve sempre, que pode nos ajudar a nos relacionar com os mistérios da existência – a consciência. Sim, esta que tem como característica uma força reflexiva, que se volta, a partir de nós mesmos, para nós mesmos. É o fim do outro como o mal do mundo e do que eu mesmo vivo.

Não é por acaso que esta é a história de Star Wars, Darth Vader, seu filho Luke e das relações amorosas e fraternas (ainda que novas tramas menos profundas parecem estar sendo criadas desde que a Disney assumiu o controle). Darth Vader parece ter ainda amor pelo filho. Luke ainda pode resgatá-lo, mas não à força, precisa da compaixão pelo caminho do pai. Léia é a redescoberta de sua tradição, seu lugar, sua família. Vader é Luke em sua possibilidade de sair do inconsciente – que pode deixá-lo quase sem respirar. Luke é Vader em sua necessidade de compreender os caminhos difíceis de perda e ganho da vida e que, em realidade, não tem culpados. Estamos todos por aqui, ainda, vivendo todas estas coisas. Talvez então com estas imagens, tenhamos algumas pistas do porquê "Star Wars" ainda é "Star Wars".